Designe: a Experiência de se Publicar uma Revista de Informação em Design
Henrique Pires
professor da Univercidade e membro do IAV
O Instituto de Artes Visuais da UniverCidade – IAV foi criado em 97. Para se tornar um laboratório de experimentação em Design Gráfico, precisaria de canais de comunicação. Foi natural, portanto, que se ventilasse a idéia de uma revista exclusiva.
Mas o conceito não estava amadurecido. O Instituto de Artes Visuais não se propunha como editora: é uma estrutura enxuta funcionando na Unidade Ipanema da UniverCidade, onde também se abriga o curso de Design. E que inclui pesquisadores que são professores e designers atuantes, além dos estagiários do curso.
A revista precisaria ser coloquial, distanciando-se da formalidade. Achávamos que o padrão da respeitabilidade acadêmica em Design já estava, no Rio, bem atendido por outras publicações. Mas que deveria haver prática e experimentação que merecessem ser divulgadas, embora não se ajustassem aos padrões metodológicos de uma revista científica e tampouco fossem enquadráveis numa publicação comercial.
Lançar uma revista com qualidade era uma operação complexa; dependeríamos, para gerar conteúdo, de colaborações, e nossa esperança era cativar os colegas com a proposta de escrever e divulgar sua prática profissional. O modelo nos foi sugerido pela Revista Ciência Hoje da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Ela se configura como “revista de divulgação científica”, mais ligeira e aliviada. A SBPC possui ainda a Revista da SBPC, uma “revista científica”, rigorosamente falando. Nossa publicação deveria ser uma “revista de divulgação em Design”. A proposta mais leve não era antiacadêmica, mas, ao contrário, complementar à científica. Ela permitiria, por exemplo, funcionar sem um conselho editorial: a própria equipe do IAV cumpriria o papel. Não era pretensão: é que ninguém pensava em exigências para aceitar colaborações. A preocupação sempre esteve em captar matérias.
E a quem pedir texto? Acreditávamos que a comunidade profissional tinha vontade de publicar sua própria experiência. Não desprezávamos que também a comunidade acadêmica da própria UniverCidade se engajaria no projeto, e que mesmo pesquisadores de outras instituições teriam interesse em publicar numa revista aliviada.
A maneira de fazer isso foi prosaica. De uma reunião saiu uma lista a especular: designers, pesquisadores, professores; os amigos, os mais próximos, os conhecidos por terem escrito, ou por estarem desenvolvendo alguma proposta original. Foi definido um prazo de entrega que viria a ser dilatado por tantas vezes. E um limite de dez laudas que depois se mostrou excessivo.
A comunidade retribuiu ao chamado, mas não foi uma resposta homogênea. Houve casos de matérias entregues imediatamente: designers-autores reprimidos, sem chance de publicar. A maioria pediu tempo para pensar no tema: foram pegos de surpresa. Alguém questionou se poderiam os próprios autores diagramar as páginas de seus artigos. Permitiu-se a personalização, desde que guardada uma diagramação básica ainda por definir...
Quando as matérias começaram a entrar, aproximando-se o fechamento, houve uma distribuição informal para que se fizesse uma leitura de aprovação. Na medida em que não havia um padrão de requisitos, tal leitura implicava apenas em observações sobre o texto como: adequação ao campo do Design, atualidade da temática e estilo, que deveria ser adequado aos alunos e fiel à proposta “aliviada”.
Pôde-se observar que a retórica variava. Haveria necessidade de se unificar o estilo editorial. Experimentamos revisão externa, porém no final funcionou o copidesque caseiro, do pessoal do IAV. Alguns de nós se descobriram dublês de redatores...
A idéia simpática, de se produzirem edições temáticas, foi abandonada. O IAV não tinha condições de impor assunto, porque toda oferta de material era gratuita. À variedade de autores correspondia a variedade de temas. O que se podia fazer era “balancear” para que não houvesse excesso de matérias tratando da mesma questão.
Comuns, entretanto, eram as matérias longas demais. Eram devolvidas aos autores, para mudanças ou resumo. Às vezes o autor deixava por conta do IAV a execução da “cirurgia” necessária.
Um mito surgiu, à época: de que o IAV mantém um banco dos textos que excederam. O correto é que quase todo artigo foi efetivamente publicado. Os que ficaram são do pequeno grupo dos rejeitados. Por isso, desde o primeiro número, temos no IAV uma rotina de jornal: edição publicada, estamos de novo a captar para a próxima.
Entretanto, a aprovação de qualquer matéria nem sempre se dá sem problemas. Um texto cujo leitor achou que precisava de ajustes, será antes lido por outros dois membros. E as discussões, quem viu garante que podem ser bem vivas, até a decisão.
Engatinhávamos como “editores”. As matérias que recebíamos amadureciam o conceito da revista e sugeriram algumas seções: a Entrevista, em que um designer ou profissional afim seria sabatinado por convidados (o ilustrador Roberto Renner, os irmãos Campana, o fotógrafo Cafi foram os escolhidos); outras seções foram Typodrome, mantida pelo núcleo de pesquisa em tipografia do instituto; Bugigangadrome, que coleciona o Design banal que ficou esquecido no passado; a do Núcleo de Ilustração; e a mais recente do Projeto Memória, que documenta a produção acadêmica e serve como ponte do formando para o mercado profissional.
Quanto ao formato, seria bom uma diferença formal. Página que permitisse expor imagens, mas que também garantisse portabilidade nas mochilas. A questão do custo pressupunha que páginas menores gastassem menos papel. O formato quase quadrado escolhido, 22 por 20 cm de página, fugia tanto do padrão A4 como das revistas comerciais. A partir do formato BB, os cadernos de 12 folhas favoreciam o máximo aproveitamento, reduzindo as sobras.
Noventa e seis foi o número de páginas estabelecido (com quatro cadernos). A primeira edição trouxe 23 matérias. Por fidelidade ao conceito, que propunha dosar imagem e conteúdo, insistia-se na então audaciosa proposta de metade dos cadernos em cor e metade em preto e branco. A encadernação seria por colagem, com lombada reta: a capa seria responsável pelo impacto que a publicação pudesse causar.
A publicação precisava ter um nome. Não houve investigação. A sugestão de DEZIGNE, numa contração de ZINE com DESIGN (ZINE de magazine, importado do inglês), foi prontamente aprovada. Antes do lançamento, teve o Z trocado pelo S por influência do filólogo Antonio Houaiss (Designe de “designear”, ou projetar, segundo o mestre). E ficou DESIGNE. Em português, ainda que alguns insistam em pronunciar DISÁINI...
Como logotipo, DESIGNE foi montado numa tipo desenvolvido no Typodrome que batizamos de Why Not. Até o momento Why Not resistiu como padrão para títulos, sobrevivendo às mudanças de diagramação. Como a capa muda a cada número, acaba ancorada apenas pela tipografia, que por isso é considerada fundamento importante da identidade da revista.
A emoção de ter a primeira boneca punha em segundo plano problemas referentes ao projeto gráfico (causados pela decisão de se permitir que os autores pudessem diagramar as matérias), e a viabilizar impressão.
Essa questão, inerente a qualquer publicação que não seja comercial, reaparece cada vez que a boneca de uma nova edição vem à luz. Desde o primeiro número são impressos três mil exemplares. A parceria com fornecedores permite a performance. O acesso a fabricantes de papel e gráficas vem da prática profissional dos membros do IAV. A parceria fica explicitada na qualidade do papel utilizado e no tratamento da capa. Mesmo se não notado pelo leitor, de modo nenhum é menos precioso.
Igualmente precioso é que, apesar das crises econômicas, o IAV tem recebido o apoio da UniverCidade. A combinação de parceria e apoio institucional é que permite que ela chegue às mãos do leitor.
A ferramenta mais eficaz para causar impressão nesses contatos é mostrar uma boneca consistente. Quando se buscava suporte para o segundo número, a boneca e um exemplar do número anterior serviam como abre-alas. Hoje, nosso pacote para impressionar tem o peso das cinco edições já publicadas, acompanhadas da boneca daquela que seguirá.
Mudanças ocorreram nas edições posteriores. Aumentamos o número de páginas, porque, com ótima recepção pelos leitores, o interesse dos colaboradores também aumentou. Passaram para 144, em doze cadernos, metade coloridos, metade p/b. Na terceira, o número de cadernos coloridos passou pra oito. E o quarto número trouxe uma Designe totalmente colorida, reforçada por um novo projeto gráfico, que deixou a revista mais arejada e muito mais gráfica. Uma sofisticação foi introduzida nos textos: a lide, que é um parágrafo introdutório sobre o assunto que será tratado.
Designe funciona com as iniciativas do IAV. Ela serve para divulgação, como havia sido pensado desde o princípio; mas também inspira propostas para gerar matérias. Como as documentações da carreira de Fernando Pimenta (cartazes de cinema) e de Eugênio Hirsch (capas de livro), cujas exposições na Galeria da UniverCidade enriqueceram as edições da revista. Outra registrou o “Tributo a César Villela”, emocionante a homenagem prestada pelo IAV e pela ADG ao criador das capas de disco da bossa nova.
O IAV promoveu e a Galeria da UniverCidade abrigou coletivas em que designers tiveram oportunidade de exprimir-se em temas como: “Poluição na Lagoa”; “Logotipo para Coca-Cola”; “Mudança na Bandeira Nacional”. Todas documentadas nas páginas coloridas de Designe.
A revista abriu páginas para intercâmbio com outras escolas de Design: Faculdade de Belas Artes de São Paulo e da Universidade de Minas Gerais puderam mostrar trabalhos. Também a prata da casa tem espaço: a revista conta com colaboradores ex-alunos. E premiações alcançadas também são divulgadas.
A revista cumpriu seu papel ao refletir sobre a prática do Design: projetos foram dissecados por seus criadores; experiências interdisciplinares foram resenhadas, abrindo o horizonte dos leitores; veteranos traduziram sua experiência em informação preciosa para os formandos; o pitoresco da profissão foi revelado por pesquisadores capazes de produzir crônica saborosa. Mesmo ensaios com um viés científico acabaram abrigados na Designe. Para isso, contou o talento dos autores que souberam converter para a linguagem “light” que a revista pedia.
Infelizmente não cabe, nesse curto tempo, listar o prestigioso elenco de colaboradores. Mas Designe resulta do esforço de tantos que, quase nunca profissionais da escrita, acorrem num compromisso mais que profissional para divulgar e da refletir o Design. Cabe aqui o agradecimento à comunidade participante.
Com o sexto número em andamento, um balanço do que Designe permitiu alcançar:
1. Aprofundar relações do IAV com o meio profissional e com o acadêmico.
2. Confirmar viabilidade da revista de origem acadêmica mas com linguagem coloquial.
3. Divulgar as iniciativas do IAV e do curso de Design da UniverCidade.
4. Difundir conceitos de Design e informação relacionada, valorizando o papel do designer.
5. Conscientizar alunos pela leitura, apresentando-lhes a idéia do texto de Design, inclusive oferecendo ao professor textos didáticos de apoio.
6. Documentar a produção acadêmica da UniverCidade, oferecendo aos estudantes a possibilidade de publicar.
7. Informar a comunidade vinculada ao projeto, à pesquisa e ao ensino, incentivando essa comunidade a escrever.
8. Divulgar, junto à comunidade de designers, a produção interdisciplinar de artistas, arquitetos, engenheiros e outros.
9. Divulgar a didática do ensino em Design nas escolas do Brasil e do exterior, permitindo o intercâmbio.
10. Documentar a história do Design brasileiro e divulgar esforços de investigação.
11. Redescobrir a trajetória de personagens do Design, sobretudo dos que atuam ou atuaram no Rio.
Não menos importante deve ser considerado o retorno que a publicação trouxe ao IAV e ao curso da UniverCidade. A cada edição, surpreende a demanda por exemplares do Brasil e do exterior. Por causa de Designe, jornais e TV tem recorrido ao IAV como referência para informação e opinião.
Cada edição de Designe é oferecida gratuitamente aos alunos do curso de Design da Instituição. O lançamento enseja as Semanas de Design da UniverCidade, com concorridas palestras. Além disso, a comunidade externa não fica esquecida: a revista é vendida pela Livraria Citibooks da UniverCidade, que também se encarrega de distribuí-la.
Para a equipe do IAV, o sucesso da revista em parte está na vontade de melhorá-la cada vez que uma tiragem vem à luz, e o foco se desloca para a próxima. Em outra parte, está em mantê-la viva ao longo dessas seis edições. Para que o exemplo possa empolgar quem sonha projetos similares, é forçoso reconhecer que temos condições que favorecem: dispúnhamos dos recursos humanos e técnicos do IAV para o projeto; recebemos a solidariedade das comunidades docente e de profissionais e interessados que se esforçam em oferecer matérias; a experiência de componentes do instituto vem transformando em parceria a simpatia dos fornecedores; contamos com o suporte da instituição quando a ele recorremos; e a cada lançamento somos estimulados com a preferência que alunos e demais leitores demonstram pela informação que a nova Designe pode trazer.
A revista Designe está nesse momento, em processo de captação de matérias. O prazo vai até fim de outubro. Estamos disponíveis para contatos dos interessados pelo e-mail:
iav@univercidade.br
Muito obrigado.